PROJETO


Pintura má 16 (ou Como a dos deuses, a pupila Lhes arde em fogo)

As imagens desenvolvem-se com base numa reflexão crítica sobre o contexto Social e político do modelo predominante de sociedade. Uma sociedade ocidental globalizante, em que a imagem domina maioritariamente o espaço da cultura, que se inscreve num tardo capitalismo, e é pensada a partir dos seus elementos particulares. Esta análise é feita através da representação de uma simultaneidade de espaços, que pretende estruturar de um modo simbólico um conjunto de relações – isto é, uma rede que mapeia pontos. Esta rede baseia-se na intenção de elaborar as imagens, que em função de uma ideia ou tema, possam ser sobrepostas ou conjugadas em função de uma certa noção de abstração na imagem figurativa. O tipo de registo, em que a justaposição serve como método de esconder ou deixar ver os vários espaços diminuindo o índice de hierarquia pictórica – retirando a perspicuidade geralmente associada há pintura do mesmo “ género ” – vai questionar, de um modo entrópico,o modo de existir em que “ o tudo é nada, e nada é tudo ”. Este prelúdio de abstração – marcado por uma disparidade de imagens a que se refere a época da sobrevalorização estética - distingue uma certa característica existencialista – uma atitude existencial (que é, talvez, um dos principais fundamentos do movimento de contra-cultura). É assim necessário alcançar um resultado que perceba a inviabilidade da decoração, a “desumanidade ou aridez ” da abstração e o narrativismo da figuração – um confronto entre a pintura ilusória, como imitação da natureza e um elemento bidimensional que não cede o seu espaço ótico, é esta relação entre estes dois campos, que à partida já está condenada. É esta impossibilidade ou indecisão que, de uma outra perspetiva, permite a quebra de convenções e garante uma maior autonomia estética. A direção deste trabalho é a depensar o binómio forma e conteúdo, desconstruir estas questões e procura rum resultado que encontre a sua totalidade (que viva ou sobreviva) apartir de uma ideia fragmentada. Assim, estes objetos que são pensados num conjunto de fases que se complementam abrem uma questão que ultrapassa a ideia de pensar o nosso mundo através da sua extensão.

Na instalação ‘pintura má #16 ou (Como a dos deuses, a pupila Lhes arde em fogo)’, uma tela é exposta face a 6 balões cinzentos de gesso sobre uma tela de tecido preto com com o mesmo formato. A pintura, que retrata uma das vitimas dos incêndios de Portugal numa manifestação de desespero pela perda causada pelo fogo de Pedrógão Grande, é apresentada com a sobriedade necessária a transmitir simultaneamente o ambiente de angustia e a névoa de fumo que se sentiu em Portugal . A noção de nuvem( neste caso de fumo), enquanto símbolo– que se traduz naquilo que será uma unidade dentro de um nada - e a interligação da pintura com um objeto tridimensional vão servir como premissas para a auto-validação da obra. Por outras palavras, só é possível esta tradução linear da imagem que abalou os noticiários por se fazer acompanhar por algo que destitua da qualidade de emblema. Deste modo, a pintura - que procura uma condição de finalidade ou unidade naquilo que será o horror de ver desaparecer o mundo em que vivemos- é exibida num plano vertical face ao tapete. Esta disposição vertical da pintura face a um objeto que se encontra estendido defronte compelenos a ter a peça em conta enquanto Ícone – como se a estrutura horizontal motivasse algum tipo de cerimónia.

Por outro lado, a estrutura que suporta os balões vai operar como uma superfície territorial que, impedindo uma boa aproximação à tela,funciona como um espelho da obra na parede – um reflexo antagónico. A disposição horizontal e vertical acaba por atuar como artífice que insere o espetador no ambiente da obra. Esta estrutura complementasse, por consequência,impondo nos uma conceção de autoconsciência. É, assim, sobrea noção de território que o objeto balão, enquanto figuração de uma cerimónia festiva – e de um modo mais abstrato de um simples objeto que encapsula ar - é introduzido como marcador preciso de uma localização.Estes pinpoints , que mapeiam áreas dos incêndios de acordo com a sua magnitude, em conjunto com o formato pré-estabelecido da estrutura em que assentam impede uma leitura limpa dos contornos do mapa aludindo a uma desorganização espacial.

Com esta obra pretende-se, então, que haja um movimento por associação do peso figurativo da imagem da residente de Pedrógão Grande no real peso físico dos balões sobre o tecido da sua estrutura.

Este movimento vai, então, levantar todo o tipo de questões acerca da necessidade de um pensamento racional, mas retroativamente afetivo sobre as políticas ecológicas ocidentais.