PROJETO


S/ titulo

O meu trabalho começa sempre com um encontro. Referindo Duchamp e à forma como este artista encontrava os objectos que seriam os seus ready-mades, sem os procurar, atrevo-me a dizer que no meu trabalho, num instante preciso, há um encontro amoroso, o objecto escolhe-me e eu escolho-o.

O trabalho apresentado passou pelo mesmo processo inicial. Depois de ter o objecto de base (uma antiga caixa de electricidade) e de retirá-lo da função para a qual foi realizado, de retirá-lo do seu contexto habitual, comecei o processo de criação propriamente dito. Retirei elementos, acrescentei outros. Apoderei-me de elementos constituintes de outros objectos e introduzi no primeiro, num processo de desconstrução e construção.

O resultado é uma caixa de ferro que também pode ser uma mala para poder ser facilmente transportada, com aspecto cuidado, mas onde se vêm as cicatrizes da sua existência anterior, forte, pesada, mas cujo interior é requintado, frágil, macio, luminoso.

Para conseguir escrever sobre este trabalho, necessito remeter-me para o tema principal incluído em todos os trabalhos criados por mim: os afectos, o amor, os laços que se estabelecem e, da mesma forma, a ruptura dos mesmos, a falta desse amor, o viverem com a ausência do mesmo. O nosso corpo (como o corpo dos objectos que encontro e que servem de base aos meus trabalhos) ressente-se da perda e da ausência do outro, ganha novos traços, outros registos. E com o tempo, ganha um certo restabelecimento (na sua incessante transformação).